D #001 Cinco de Janeiro
Decidi escrever, colocar em palavras pensamentos antes que se afoguem no peso da memoria, palavras são eternas, ou pelo menos, não sucubem a morte como a mente, sinto que minha mente está esvaindo, desfragmentanda em cacos que consigo observar, mas não recompor, maldito kintsugi que me é impossivel. Há algo que está errado, se não comigo, com o mundo, provavelmente com ambos. Agora quero fugir de um lugar, que, primeiramente fugiu de mim, é impossível escapar, pergunto. Aquele que escapa foge em direção ao destino. Em Delfos ou Antares, onde se está, é onde reside o destino. Hoje fazem cinco dias neste mês deste ano novo, cinco dias atrás, o chão tremeu, o céu noturno se iluminou por um instante, e, o mundo acabou. Mas no dia seguinte todos acordamos. Com a maior ressaca da história, ressaca de quem morreu no apocalipse e mesmo assim tem que acordar na segundafeira. Desde então algo mudou, eu sei disso, mas, parece que outros não sabem, ou, o mais provável, resolveram ignorar, é o que se sucede com o vício pelo doce embalo da ignorância. Como só sei que algo diferente está, mas não sei o que, decidi escrever, para que essa sensação fique registrada, e caso esqueça, um dia possa lêla, e a mente não sucumba.