A Arte É Bela
Este lambe nasce de uma insistência.
O rosto que aparece é o meu, não como autorretrato narcisista, mas como campo de tensão: superfície pública, corpo exposto, identidade em disputa. Em cada lambe, uma frase. Neste primeiro, a frase inaugural: “A arte é bela.”
A obra dialoga diretamente com a performance Art Must Be Beautiful, Artist Must Be Beautiful (1975), de Marina Abramović, na qual a artista penteia o próprio cabelo de forma violenta enquanto repete obsessivamente a sentença que associa arte, beleza e valor. Ali, a frase se esgota, se fere, se revela como dispositivo normativo.
Aqui, a frase retorna deslocada.
No lambe, “A arte é bela” não funciona como afirmação pacífica, mas como armadilha semântica. Colada na rua, multiplicada, sujeita ao tempo, à rasura, à indiferença e ao vandalismo, a frase deixa de ser mantra institucional e passa a operar como pergunta silenciosa: bela para quem? sob quais condições? a serviço de quê?
A escolha do lambe-lambe não é apenas estética, mas política. Trata-se de uma linguagem precária, repetível, barata, periférica — uma tecnologia de circulação que escapa aos espaços clássicos da arte e se inscreve no cotidiano urbano como ruído, insistência e presença. A série começa a ser gestada no final de 2022 e passa a ser executada de forma contínua a partir de 2023, permanecendo ativa até hoje, como prática expandida e processo em curso.
Ao usar o próprio rosto, o trabalho desloca a figura do “artista” como ideal abstrato e reinscreve o corpo real — atravessado por classe, território, tempo e desgaste — no centro da frase. Não se trata de reivindicar beleza, mas de expor a violência contida na exigência de ser belo para existir como arte.
Transformado em NFT, este lambe não abandona sua origem de rua. Ele se torna arquivo sensível de uma prática viva, um vestígio de algo que continua acontecendo fora da tela, fora do mercado, fora da promessa de permanência. O token não encerra a obra; apenas registra um de seus estados.
A arte é bela aqui não é conclusão. É começo. É fricção. É problema aberto.